sexta-feira, 18 de abril de 2014

Quando tudo desmorona na frente dos meus olhos e o Senhor insiste em se fazer presente, e eu demoro a crer pois a dor me entrete, me cega e ensurdece.
Quando meu chão vira um mar revolto e eu me esqueço como é estar segura, uma mão se estende perdoando meu lamento, meu medo e minha ira.
Quando a ingratidão mata o sonho e a esperança e a escuridão que houve entre a cruz e a ressurreição se instala, aonde você está?
A tempestade é bela.
Eu preferia não ter sido abandonada de novo, preferia não ter me exposto ao assassino, queria a chance de fugir, ou ao menos, receber do teu consolo.
Aquele que venceu a morte, vencerá nossos corações. Faz dos cacos que encontrar um novo vaso, mais forte e mais bonito.



segunda-feira, 10 de março de 2014

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

- Cora Coralina 

terça-feira, 4 de março de 2014

Senhor, o tempo é infinito entre as tuas mãos.
Não há ninguém para contar os teus minutos.
Os dias e as noites passam e os séculos florescem e depois morrem como flores.

Tu sabes esperar.

Teus séculos se encadeiam para realizarem uma humilde flor selvagem.
Não temos tempo a perder, por isso devemos lutar pelas nossas oportunidades. Somos pobres demais para nos atrasarmos.
E assim passa o tempo, enquanto eu o deixo entregue ao lamento dos que o reclamam; e até o fim teu altar fica sem oferendas.
No dia que termina, apresso-me, receoso de que a tua porta esteja fechada; mas descubro que ainda é tempo.

Rabindranath Tagore em Gitânjali (1982).

domingo, 26 de maio de 2013

a paixão acaba
já conheci seu lado mais imundo
choramos a distância lado a lado
quero que fiques (se não chover, não cria raiz)
esperaremos o raiar do sol
trabalharemos pro renascer do amor - de novo
e é certo que ele brilhará
vamos tomar café ao amanhecer,
comer geléia de amora
colher os frutos da promessa
miseráveis pecadores, redimidos pelo sangue
te amar é um presente, permanecer é um mistério
permaneceremos, preto
para a Glória de Deus Pai, floresceremos



domingo, 19 de maio de 2013

Murilo Mendes

A GRAÇA

Desaba uma chuva de pedras, uma enxurrada de estátuas de ídolos caindo, 
manequins descoloridos, figuras vermelhas se desencarnando
dos livros que encerram as ações dos humanos.
E o meu corpo espera sereno o fim deste acontecimento, 
mas a minha alma se debate porque o tempo rola, rola.
Até que tu, impaciente, rebentas a grade do sacrário; 
e me estendes os braços: e posso atravessar contigo o mundo em pânico.
E o arco-de-Deus se levanta sobre mim, criação transformada.

O JUSTIFICADOR
Teu espírito se dilata para abraçar a criação.
Chegam famílias das pirâmides para te verem,
Outras chegam dos confins dos mares.
A noite te anuncia pelos seus astrônomos e suas estrelas,
O dia te proclama pelos seus sinos e pelos seus jornais.
Gerações inumeráveis crescem à sombra da tua Igreja.
Atravessas campo e deserto, sobes em arranha-céus,
Voas no aeroplano, desces no submarino,
Abalas a alma do cego, do criminoso e da perdida.
Presides ao casamento, ao nascimento, à morte e à ressurreição.
Os homens te dividem em mil imagens falsas:
Mesmo assim, mutilado, esquartejado, sujo,
Dás a todos o único, o insubstituível consolo.
Tuas parábolas publicadas em edições de engraxate
Comovem ao mesmo tempo o ignorante e o poeta.
Os maus sacerdotes em vão procuram te ocultar:
Tu os convertes na última hora, como ao bom ladrão.
Espalhas pela terra teu corpo e tua alma em pedaços,
E cada alma, mesmo ruim, é uma relíquia tua.
Diariamente o mundo te persegue e te mata,
Diariamente ressuscitas a atrais o mundo a ti.


ETERNIDADE DO HOMEM
Abandonarei as formas de expressões finitas,
Abandonarei a música dos dias e das noites,
Abandonarei os amores improvisados e fáceis,
Abandonarei a procura da ciência imediata
Serei a testemunha de um mundo que caiu,
Até que te manifestes na tua Parusia.

Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,
Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,
Descerei até o fundo da mina do sofrimento
Para que um dia me apontes o céu da paz.

Minha história se desdobrará em poemas:
Assim outros homens compreenderão
Que sou apenas um elo da universal corrente
Começada em Adão e a terminar no último homem.


O UTOPISTA

Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Louvado seja o Senhor
que mais uma vez tirou-me o riso
Louvado seja o Senhor 
que em minha dor fez-me lembrar de sua promessa
Louvado seja o Senhor pois a luta não terminou
e a vitória é certa pois é sua e não minha

O amor vencerá a mentira
O amor vencerá o pranto
O amor curará as chagas
O amor persistirá contra toda a liquidez

Cega, surda e louca
profundamente ferida, de novo
Sei que estou em seus braços 
e deles jamais poderei escapar

Graças te dou por sua fidelidade
Graças te dou pois reconheço, Rei meu e Deus meu:
eu sou sua

quinta-feira, 25 de abril de 2013

alá Pedro Bial

    Aqui em casa a gente tem mania de guardar coisas, qualquer tipo de coisas. Tem gente que não acha isso normal, nem saudável. De tanta coisa inútil, o que é útil, fica a vista por falta de espaço físico mesmo, dando uma sensação de eterna bagunça...
    Ok, eu concordo, não deve ser normal nem saudável mesmo.
    Após 20 e poucos anos, uma estante enorme que ficava em um dos quartos (justamente aquele quarto que todo mundo já dormiu) teve de ser desfeita já que a gente ganhou um outro móvel. Acredito que pouca gente no mundo pode ter a inundação de boas lembranças que eu estou tendo agora. Está tudo espalhado pra gente poder se acertar de novo.
    Coleção de fitas da disney, cds (de NOFX a só pra contrariar), jogos de tabuleiro, meus pôsteres no nirvana e do gianecchini (ahahahahahah), cadernos desde o infantil I, poemas, provas, cartinhas de abor, desabafos, conversas eternas que rolavam durante as aulas no papel, desenhos, papel de bala, minhas tintas, revistinhas de cifra, recortes e colagens toscas, elogios e  puxa-saquismos de professores (saudades, inteligência), um texto meu da sexta série, pasmem, falando de como eu era fã de Lênin, enfim; que bom que nada disso se perdeu, que bom sentir o cheiro da minha infância de novo, lembrar das crises dos 14 anos e ver que eu sobrevivi, que bom rir de si mesmo, ver o quanto eu cresci e o que ainda é exatamente igual. 
    Não jogue suas lembranças fora (aliás, pode jogar, mas não jogue tudo, isso sim é doença) elas um dia dirão quem você foi, quem você é e te ajudarão a lembrar de quem você quer ser.
"Louvado seja Deus meu Senhor porque o meu coração está cortado a lâmina, mas sorrio no espelho ao que a revelia de tudo se promete, porque sou desgraçado como um homem tangido para a forca, mas me lembro de uma noite na roça, o luar nos legumes e um grilo, minha sombra na parede. Louvado sejas porque eu quero pecar contra o afinal sítio aprasivo dos mortos, violar as tumbas com o arranhão das unhas, mas vejo tua cabeça pendida e escuto o galo cantar três vezes em meu socorro. Louvado sejas porque a vida é horrível, porque mais é o tempo que eu passo recolhendo os despojos. Velho é o fim da guerra como macabra, mas limpo os olhos ,do muco do meu nariz, por um canteiro de grama. Louvado sejas porque eu quero morrer, mas tenho medo e insisto em esperar o prometido. Uma vez quando eu era menina quando abri a porta de noite, a horta estava branca de luar e acreditei sem nenhum sofrimento, louvado sejas.”

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Retrrrrrrrrrrrrrrospectiva

Sei que é brega fazer retrospectiva, mas este blog está abandonado, eu não tive diário esse ano e sei que dessa forma, de alguma maneira eu vou poder ler isso um dia com saudade de mim, ou não, enfim... vai estar guardado, e é bom prevenir, pois o Alemão vai chegar...

2012 foi um ano chuvoso. 
Fui de encontro com dores antigas através dos novos desencantamentos e fracassos. Passei pelo período mais trash da minha vida até aqui, fui apunhalada, encarei, cavei, quis descobrir o tamanho da ferida e quando dei por mim, não consegui mais voltar. 
Consegui afastar meus amigos, consegui me afastar do ministério, descobri minha face mais frágil, admiti a dúvida, a solidão, admiti que eu não sei ser assim e que foi isso que me fez correr pra gruta pra tentar entender como é que se vive desse jeito. 
Saí da EMDEC, assumi 14 salas no Estado, descobri minha vocação e durante o primeiro semestre no meio da pior tempestade, eu acordava sorrindo pq eu ía dar aula e de alguma forma eu entendia que isso engrandecia ao Senhor. Ganhei uma bolsa de estudos no Senac no curso de fotografia, renunciei as aulas. Descobri que também gosto disso e acredito que tomei a decisão correta. É um problema gostar de muitas coisas...
Comecei a fazer taekwondo, um curso de inglês na Unicamp também com bolsa e ainda conclui o terceiro ano de ciências sociais, sem nenhuma DP.
Não trabalhar é complicado, a ansiedade de tempos em tempos vem nos visitar, mas em tudo o Deus tem sido fiel e provido as minhas necessidades.
Aprendi Libras, já esqueci. Li pouco, corri muito, mas fiquei bastante em silêncio. Percorri cerca de 12 mil km com a Jurema e só dei duas voltas no quarteirão de bicicleta. Descobri que tenho frouxidão ligamentar, que tenho que correr atrás de mestrado no ano que vem, que o livro de Jó faz sentido, que eu cozinho muito bem, que tereré vicia, mas emagrece, que depressão também emagrece... 

O que espero de 2013? Um dia de cada vez. Um coração mais sereno, curado talvez. Gente por perto, risadas, piquenique, comunhão. Espero contentamento em Deus, sabedoria, bicicleta, música, um quarto um pouco mais organizado, uma família um pouco menos desunida e uma musculatura nas costas que me permita continuar sendo bípede, pq do jeito que as coisas estão indo...

Sou grata pelas provações, sou grata pela dor que me mostra que eu continuo viva, sou grata por ter o que comer, pq a minha cachorra passou mais um natal com a gnt, sou grata pq eu tenho 2 primas nenéns lindas, sou grata pela Graça e pela Gracia, pq gelo funciona para desinchar o pé e enfim... eu sou sua Filha e isso não muda apesar do meu desempenho. Obrigada por todo o cuidado e obrigada pela certeza de que o sol sempre volta a brilhar.