terça-feira, 20 de abril de 2010

a Kombi

Nasci numa cidade do interior paulista no início da década de 70, mais precisamente no inverno de 1972. (Eram de chumbo aqueles anos no Brasil). Era o filho mais novo de uma família de cinco irmãos - duas meninas e três meninos. Morávamos todos numa pequena casa de três quartos e apenas um banheiro.
Toda manhã  era aquela correria, todos queriam (e tinham!) que usar o banheiro ao mesmo tempo: escola, trabalho, etc... Os únicos que não sofriam com as filas do banheiro eram eu, que ainda não tinha a obrigação de ir para a escola, e meu pai, que madrugava todo o dia por volta das quatro da manhã para tomar café (ah! minha mãe levantava antes para fazer o café...). Ele ia para o trabalho, não sem antes curtir, no centro da pequena cidade, o dia que começava a clarear acompanhado ao som dos passarinhos. Uma de suas paixões.
Outra paixão de meu pai e, principal personagem desta história, é a perua Kombi. Ela já participava da família desde 1967, quando meu pai a adquiriu “Zero Quilômetro”.
Durante muito tempo a Kombi foi o único veículo da família. Todas as nossas viagens, passeios e necessidades eram feitos nela e, além disso, era de extrema importância no trabalho do papai, todos os serviços feitos em sua tipografia tomavam o destino dentro dela. A Kombi azul foi o segundo carro do seu Zé Betti - como meu pai era conhecido, antes dela ele possuiu um carro que, de tão velho acabou sendo trocado por uma sanfona!(?)... (Não, papai não era músico! E nem nunca tinha pego em uma sanfona, mas isto é outra história...)
Fui crescendo... E a Kombi imponente, azul clara, na garagem – que ela ocupava, ou melhor, completava - continuava na família. Ela foi única nesse cômodo da casa (a garagem) até perder o abrigo para uma Brasília (amarela!) “zerinho” da minha irmã que acabara de completar 18 anos em 1979. A partir daí ela começou a “morar” na rampa descoberta daquela pequena casa. Os anos foram passando e outros carros foram aparecendo na família, um Voyage branco, uma Brasília (com teto-solar!) cinza e, da mesma cor, um Gol. Todos estes carros chegaram e... Passaram. A Kombi azul continuou...
Meu pai aposentou. E a Kombi ainda era a sua grande companheira, não mais nos desafios do trabalho, mas agora ela cumpria o papel levando-o para a “curtição”, na pescaria, no encontro com os amigos nos botecos da cidade, na batida diária na sapataria de seu grande amigo Antenor e por outros cantos. Nesse período meu pai brincava: “Meu coração balança entre a Kombi e a Coruja”. Coruja era a maneira carinhosa que ele chamava a minha mãe.
Na década de 90 meus sobrinhos nasceram e adoravam o CARRÃO do vovô. Era na Kombi que eles conheciam a cidade e, no balanço dela, embalavam os seus sonhos.
No carnaval de 1999 a Kombi silenciou...
Meu pai faleceu.
Nem eu e nenhum dos meus irmãos, tivemos coragem de nos desvencilhar daquela que competia com minha mãe no coração do papai. Até hoje, mais de 10 anos após a morte do seu Zé, ela continua na família. Não anda mais (não por falha mecânica, pois continua completa). Mas continua como um ídolo, um monumento de amor e carinho que marcou a história, a lembrança e a saudade de uma família. 
















Este texto é de autoria do meu Tio André, ex-cabeludo.
O prazo para participar da promoção "Kombi 60 anos" já foi - eeeeeeeeeee \o/