quinta-feira, 30 de junho de 2011

bolo de laranja...

Cabelo bem preto até na cintura, demorou pra escovar, saia jeans, sapato de bico fino, olhar sério e desconfiado, devia ter uns doze anos... Entrou no ônibus com a mãe, cabelo preto até a cintura, demorou pra escovar, saia jeans, sapato de bico fino, olhar sério e desconfiado. A mulher e a mini-mulher.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Redenção



O Sol sempre volta a brilhar
nós vamos sorrir outra vez
o Rei já está pra voltar
seremos quem fomos feitos pra ser...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

À Margem

    Sempre dei atenção a malucos, não entendo bem o porquê. Minha mãe e meus amigos morrem de medo que algum deles me faça mal e reprovam em especial o toque e o tempo que lhes dedico.
    Trago alguma bagagem de conversas, histórias e constatações...
    Grande parte das pessoas que vivem nas ruas conhecem a bíblia e já foram de igreja. Garotas de programa, usuários de droga, ex-presidiários, alcoólatras, gente que perdeu a família, perdeu o nome, perdeu a subjetividade. Menores, marginais, nóias, bandidos. A sociedade (e a igreja) não os enxerga mais como sujeitos, e sim como problema que deve ser escondido.
    Conhecem o evangelho a partir da ótica neopentecostal, choram ao ouvir falar de Jesus e não acreditam em seu perdão. Foram muito cobrados para serem santos e bem sucedidos, mas boa parte não sabe o que significa a cruz e a graça. Creem que o mundo jaz no malígno e desejam o céu com todas as forças. Culpam os demônios por seu fracasso e gostariam muito de poder tomar banho.

Efeitos contrários produzidos pela religião...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Deus tem o melhor pra mim"

     Cheguei ofegante no ponto - como de costume, perdi o horário. Embarquei no 674 com bolsas, blusas, marmita e alguns passes contados pra ir e voltar no fim do dia. Fiquei feliz de poder me sentar dessa vez, poderia completar minhas 5hrs de sono com um cochilo com direito a baba na janela do busão. Nas lombadas, eu desperto assustada, olho ao redor e dou graças mais uma vez por estar viva. 
     Um senhor visivelmente embriagado entrou pela porta de trás do veículo com uma caixa enorme e se enfiou entre os sonolentos do corredor sem pedir licença, falando bem alto:
     - Senhoras e senhores, desculpem-me por atrapalhar a vossa viagem. Meu nome é Edvaldo, tenho dois filhos pra criar, estou desempregado e por isso vendo estes doces. Aceito vale-transporte, refeição, oferta voluntária, qualquer coisa pode me ajudar. Desde já agradeço, sabendo que Deus vos abençoará.
     Todo dia encontro este tipo, às vezes na ida e na volta, cato as moedas caídas na bolsa, olho em todos os cantos pra ver se posso dar algo mais. Dessa vez fui um pouco mais resistente, pensei até em não dar, o discurso era muito batido e o cheiro da pinga era forte... Não consegui, encontrei alguns passes amassados e pedi pra que Deus me providenciasse a volta pra casa.
     -Toma, Deus te abençoe, Edvaldo.
     Pronto, dei uma fungada aliviada, guardei as tralhas na bolsa e fechei os olhos de novo. Pouco tempo depois senti alguém cotucando meu ombro:
     - Deus tem o melhor pra mim! Não quero o que te sobra, menina – me devolvendo as merrecas com raiva.
     Não argumentei, guardei os passes e engoli a seco, lembrando-me que provavelmente ele aprendeu isso com a música do Fernandinho em alguma igreja materialista. Pensei com meus botões, “Deus tem uma cruz pra mim”.