quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tereza

     Tereza vivia uma vida medíocre, não era nada do que queria ser, tinha mais do que almejava ter e seus ídolos não mais satisfaziam o seu coração sedento. Tentou a yoga, a agricultura familiar, banhos de lama, aulas de sax, ponto cruz, tv paga, outro romance, apelou para o altruísmo, se envolveu com política, chá das mulheres, bingo beneficiente, conheceu o Che Guevara, se apaixonou, lutou, desencantou, quis desistir. Tornou-se cínica, apagou os incensos, viciou-se em vodka e num domingo cedo, na varanda, antes de se embriagar, sentiu a brisa e ouviu os pássaros. Há muito tempo não se comovia com tão pouco, chorou de saudades da infância, das estórias que a vovó contava sobre um reino distante onde não havia dor, dos seus irmãos deitados na terra batida olhando as estrelas enquanto o papai acarinhava a viola, lembrou-se de seu cãozinho magricela de olhar profundo e sorriso largo e por um momento, pensou que era feliz. Deu meia volta, olhou para seu castelo tão vazio e tão gelado, arremessou a garrafa com força contra a parede e saiu descalça a procurar qualquer vestígio de simplicidade. Cansada, sentou-se numa sarjeta, colheu um graveto e escreveu no asfalto "Estou perdida" e então, ouviu ao longe um coral cantar sobre uma tal Graça Maravilhosa de som doce que salvava miseráveis como ela e desabou a chorar.

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