segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Lamentações de Wolterstorff


Bem aventurados os que choram porque serão consolados - Mateus 5:4

    Dizem que homens devem ser fortes e que a força de um homem, em meio a desgraça, se percebe em sua face sem lágrimas. Mas como celebrar uma estóica ausência de lágrimas? Como insistir em nunca externar o que dentro está sangrando? Será que suportar chorando não requer tanta força quanto nunca chorar? Por que devemos sempre esconder o nosso sofrimento? Não devemos, por vezes, permitir que as pessoas o vejam e participem dele? Por que é tão importante parecer forte? Fui agraciado com a força para suportar, mas fui agredido e ferido, gravemente ferido. E feridas são desagradáveis, eu sei, causam repulsa. Mas será que elas devem ser escondidas? 
    A propósito, o que você diz a alguém que está sofrendo? Algumas pessoas são dotadas de palavras de sabedoria. Por elas, somos profundamente gratos. Mas nem todas são assim, algumas delas falam sem pensar, coisas estranhas, sem nexo. Tudo bem, nem sempre as palavras têm de ser sábias. No final das contas, a intenção com que se fala é mais importante do que as palavras pelas quais se fala.
    Bom, se você não imagina algo para dizer, diga apenas “Não sei o que dizer, mas quero muito que você saiba que estou solidário com seu sofrimento.” Ou então apenas abrace, simples assim. Mas, por favor, não diga que a morte não é realmente tão má, porque é sim! A morte é terrível, demoníaca. Se você pensa que seu dever como amigo é me dizer que “realmente, considerando todos os ângulos, as coisas não são tão más assim” você não se aproxima de mim e de minha angústia. Pelo contrário, você se coloca muito distante de mim. E a essa distância, você em nada me ajuda. O que necessito ouvir de você é que de fato você reconhece o quanto a morte é dolorosa e que você realmente está comigo em meu desespero. Para me confortar, você tem de chegar perto de mim. Venha aqui, sente-se ao meu lado, no meu banco de luto. Venha olhar o mundo através das lágrimas. Talvez você veja coisas que jamais veria com os olhos secos.

Lamentação escrita pelo filófoso Nicholas Wolterstorff, na ocasião em que seu filho Erie, de então 25 anos, morreu tragicamente num acidente de aupinismo na Áustria.

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