domingo, 26 de maio de 2013

a paixão acaba
já conheci seu lado mais imundo
choramos a distância lado a lado
quero que fiques (se não chover, não cria raiz)
esperaremos o raiar do sol
trabalharemos pro renascer do amor - de novo
e é certo que ele brilhará
vamos tomar café ao amanhecer,
comer geléia de amora
colher os frutos da promessa
miseráveis pecadores, redimidos pelo sangue
te amar é um presente, permanecer é um mistério
permaneceremos, preto
para a Glória de Deus Pai, floresceremos



domingo, 19 de maio de 2013

Murilo Mendes

A GRAÇA

Desaba uma chuva de pedras, uma enxurrada de estátuas de ídolos caindo, 
manequins descoloridos, figuras vermelhas se desencarnando
dos livros que encerram as ações dos humanos.
E o meu corpo espera sereno o fim deste acontecimento, 
mas a minha alma se debate porque o tempo rola, rola.
Até que tu, impaciente, rebentas a grade do sacrário; 
e me estendes os braços: e posso atravessar contigo o mundo em pânico.
E o arco-de-Deus se levanta sobre mim, criação transformada.

O JUSTIFICADOR
Teu espírito se dilata para abraçar a criação.
Chegam famílias das pirâmides para te verem,
Outras chegam dos confins dos mares.
A noite te anuncia pelos seus astrônomos e suas estrelas,
O dia te proclama pelos seus sinos e pelos seus jornais.
Gerações inumeráveis crescem à sombra da tua Igreja.
Atravessas campo e deserto, sobes em arranha-céus,
Voas no aeroplano, desces no submarino,
Abalas a alma do cego, do criminoso e da perdida.
Presides ao casamento, ao nascimento, à morte e à ressurreição.
Os homens te dividem em mil imagens falsas:
Mesmo assim, mutilado, esquartejado, sujo,
Dás a todos o único, o insubstituível consolo.
Tuas parábolas publicadas em edições de engraxate
Comovem ao mesmo tempo o ignorante e o poeta.
Os maus sacerdotes em vão procuram te ocultar:
Tu os convertes na última hora, como ao bom ladrão.
Espalhas pela terra teu corpo e tua alma em pedaços,
E cada alma, mesmo ruim, é uma relíquia tua.
Diariamente o mundo te persegue e te mata,
Diariamente ressuscitas a atrais o mundo a ti.


ETERNIDADE DO HOMEM
Abandonarei as formas de expressões finitas,
Abandonarei a música dos dias e das noites,
Abandonarei os amores improvisados e fáceis,
Abandonarei a procura da ciência imediata
Serei a testemunha de um mundo que caiu,
Até que te manifestes na tua Parusia.

Aceitarei a pobreza para que me dês a plenitude,
Aceitarei a simplicidade para que me dês a multiplicidade,
Descerei até o fundo da mina do sofrimento
Para que um dia me apontes o céu da paz.

Minha história se desdobrará em poemas:
Assim outros homens compreenderão
Que sou apenas um elo da universal corrente
Começada em Adão e a terminar no último homem.


O UTOPISTA

Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Louvado seja o Senhor
que mais uma vez tirou-me o riso
Louvado seja o Senhor 
que em minha dor fez-me lembrar de sua promessa
Louvado seja o Senhor pois a luta não terminou
e a vitória é certa pois é sua e não minha

O amor vencerá a mentira
O amor vencerá o pranto
O amor curará as chagas
O amor persistirá contra toda a liquidez

Cega, surda e louca
profundamente ferida, de novo
Sei que estou em seus braços 
e deles jamais poderei escapar

Graças te dou por sua fidelidade
Graças te dou pois reconheço, Rei meu e Deus meu:
eu sou sua

quinta-feira, 25 de abril de 2013

alá Pedro Bial

    Aqui em casa a gente tem mania de guardar coisas, qualquer tipo de coisas. Tem gente que não acha isso normal, nem saudável. De tanta coisa inútil, o que é útil, fica a vista por falta de espaço físico mesmo, dando uma sensação de eterna bagunça...
    Ok, eu concordo, não deve ser normal nem saudável mesmo.
    Após 20 e poucos anos, uma estante enorme que ficava em um dos quartos (justamente aquele quarto que todo mundo já dormiu) teve de ser desfeita já que a gente ganhou um outro móvel. Acredito que pouca gente no mundo pode ter a inundação de boas lembranças que eu estou tendo agora. Está tudo espalhado pra gente poder se acertar de novo.
    Coleção de fitas da disney, cds (de NOFX a só pra contrariar), jogos de tabuleiro, meus pôsteres no nirvana e do gianecchini (ahahahahahah), cadernos desde o infantil I, poemas, provas, cartinhas de abor, desabafos, conversas eternas que rolavam durante as aulas no papel, desenhos, papel de bala, minhas tintas, revistinhas de cifra, recortes e colagens toscas, elogios e  puxa-saquismos de professores (saudades, inteligência), um texto meu da sexta série, pasmem, falando de como eu era fã de Lênin, enfim; que bom que nada disso se perdeu, que bom sentir o cheiro da minha infância de novo, lembrar das crises dos 14 anos e ver que eu sobrevivi, que bom rir de si mesmo, ver o quanto eu cresci e o que ainda é exatamente igual. 
    Não jogue suas lembranças fora (aliás, pode jogar, mas não jogue tudo, isso sim é doença) elas um dia dirão quem você foi, quem você é e te ajudarão a lembrar de quem você quer ser.
"Louvado seja Deus meu Senhor porque o meu coração está cortado a lâmina, mas sorrio no espelho ao que a revelia de tudo se promete, porque sou desgraçado como um homem tangido para a forca, mas me lembro de uma noite na roça, o luar nos legumes e um grilo, minha sombra na parede. Louvado sejas porque eu quero pecar contra o afinal sítio aprasivo dos mortos, violar as tumbas com o arranhão das unhas, mas vejo tua cabeça pendida e escuto o galo cantar três vezes em meu socorro. Louvado sejas porque a vida é horrível, porque mais é o tempo que eu passo recolhendo os despojos. Velho é o fim da guerra como macabra, mas limpo os olhos ,do muco do meu nariz, por um canteiro de grama. Louvado sejas porque eu quero morrer, mas tenho medo e insisto em esperar o prometido. Uma vez quando eu era menina quando abri a porta de noite, a horta estava branca de luar e acreditei sem nenhum sofrimento, louvado sejas.”